Existe certas músicas, certos livros que por alguns momentos podem fazer uma pessoa experimentar aquela sensação de se estar diante de algo grande, de algo belo, de algo realmente magnífico, a essas obras se dá títulos como excelente ou muito bom, tudo que está um pouco abaixo delas se nomeia bom ou razoável, as obras muito abaixo disso são ruins, péssimas, pagode ou funk (sem preconceito) . Existe, no entanto, algumas obras que vão além disso, que fazem o leitor, ou ouvinte ou apreciador se sentir diante de real beleza e grandeza o tempo inteiro, obras em que nada pode ser alterado sem ser um sacrilégio, músicas onde cada nota imita a perfeição, livros onde cada palavra está perfeita em seu lugar, e se for alterada toda obra vai cair, esses pingos de divindade que são o fruto máximo das mentes mais brilhantes desse mundo são as Magna Opera, plural para Magnus opus, latim para Grande Obra; Os nomes delas já escutamos várias vezes, temos a Nona Sinfonia de Beethoven, Mona Lisa, Dom Quixote, Ilíada, Eneida, Divina Comédia, Hagia Sofia et cetera. Eu costumo falar em Fausto e Réquiem em D menor para me referir a essas fagulhas de perfeição, e ainda continuo falando nesses dois, porém em terceiro lugar adiciono Don Giovanni de Mozart filmado por Losey.
Não posso comentar Don Giovanni só como ópera, pois a versão que me fez ver como a obra é perfeita também é um filme, Don Giovanni por Losey é um Filme-Ópera e é brilhante. Os aspectos cinematográficos eu não ouso comentar por ser bem ignorante sobre o assunto, deixo para o Huyer ou o Pedro que realmente entendem do assunto comentarem se um dia assistirem o filme (o que eu altamente recomendo). Posso dizer que eu achei bonito, os locais em Veneza e na região do Vêneto que escolheram para filmar foram muito bem acertados e combinam muito com a o libreto e com a música, e a maneira como tiraram a ópera do espaço restrito do palco, que por melhor que seja nunca vai conseguir imitar um espaço de verdade, especialmente um tão belo como Veneza é o real charme do Filme, junto com a maneira que a câmera segue os atores enquanto caminham e cantam, sempre seguindo a música. Já sobre a música eu me arrisco a falar um pouco mais e a falar que ela está perfeita, Losey reuniu os melhores cantores da ópera na época e o resultado disso ficou fantástico, não existe uma personagem que esteja com algum defeito, o Leporello de José van Dam , algumas vezes dito como tedioso eu achei muito bem feito e cômico na medida certa, Edda Moser está magnífica como Donna Anna, Kiri Te Kanawa é a melhor Donna Elvira possível, basta eu lembrar dela no quarteto do primeiro ato que eu quero largar tudo e ver o filme de novo, Kenneth Riegel faz um Don Ottavio que varia entre o muito competente e excelente e quem sabe seja o cantor mais fraco no elenco ( O que é uma pena, uma vez que Don Ottavio é meu personagem favorito da ópera). Don Ottavio tem duas árias de peso: Dalla Sua Pace e Il Mio Tesoro, a última muito mais complicada que a primeira, mas mesmo assim Riegel inverte a ordem natural e canta Il Mio tesoro de uma maneira fantástica e ao mesmo tempo faz Dalla Sua Pace ficar apagada no meio do filme
(Uma OBS. Interessante é que no original de Mozart não havia Dalla Sua Pace, Mozart a criou pois o tenor que cantou a ópera em Viena não conseguia cantar Il Mio Tesoro, desde então é costume colocar as duas árias nas produções da ópera, mas geralmente exige criatividade para encaixar Dalla Sua Pace, e o filme resolve isso muito bem)
O casal camponês Zerlina e Masetto , interpretados por Teresa Berganza e Malcolm King também está impecável, a ária de Zerlina Bati, Bati o bel Masetto é realmente impressionante pois ela é ou cômica ou terrivelmente masoquista e machista, eu realmente não acho que a ária seja machista e sempre prefiro ver ela como cômica, mas é uma ária com uma letra interessante de qualquer maneira. Para o final eu deixei propositalmente Ruggero Raimondi, deixei para o fim para deixar bem claro que ele é o Don Giovanni perfeito, a maneira com que Raimondi canta e atua como o libertino é louvável, saiba que sua reação nunca vai ser neutra para com qualquer Don Giovanni e com Raimondi ela vai ser exaltadíssima ou você vai querer espancar ele ou vai querer pausar o filme e aplaudir ele, não existe meio termo.
Esse Filme-Ópera, o primeiro do gênero que eu vi, embora saiba de outros, é uma ideia brilhante, e é fácil ver isso quando vemos La cì darem La mano cantada na Villa Rotonda ou a abertura com um barco passando pelos canais de Veneza ou ainda a lista de Don Giovanni rolando nas escadas na famosa ária de Leporello. O figurino é primoroso também, e foi um dos aspectos que mais chamaram minha atenção no filme, o personagem do Valete Negro é muito interessante apesar de não falar nenhuma vez (ou possivelmente por não falar nenhuma vez) e ao meu ver é a única adição de Losey na obra de Mozart. Meu veredito a essa altura já está bem claro, Don Giovanni é espetacular, a ópera sozinha já é a melhor ópera já feita, não a que eu mais gosto, mas eu admito que ela é melhor que A Flauta Mágica e essa versão de Losey só enriquece a obra, se você é aquela pessoa que tem uma visão clichê de ópera veja esse filme, veja pois Don Giovanni tem um tema que nunca morre, amor, traição,morte,libertinagem, vingança… tudo podendo ser resumido nas palavras de Gounod sobre essa mesma ópera: “ Um trabalho sem defeitos, de perfeição ininterrupta”
Aqui vai só UM vídeo do filme, para servir de chamariz e convite para assistirem ao filme.
O quarteto do primeiro ato que eu tanto gostei: http://www.youtube.com/watch?v=ykrjv4ctb7w
Sou suspeito, pois Don Giovanni é, sem dúvida, a ópera que mais ouço; Estava fuçando na net procurando informações sobre a montagem/direção de Sellars/1990/NYC e ví seu comentário, exatamente qdo estou baixando uma versão do filme do Losey. Não vejo a hora de assistir. Parece que o Leporello não lhe impressionou, é isso? Estou curioso pra ver no filme, pois penso que o “catálogo” é um momento lindo da ópera e discute a natureza do anti-herói de modo tocante.
Abraços
Eduardo
Olá Eduardo, pelo contrário eu achei Van Dan um bom Leporello, e o elenco é muito bom e assim impossível dizer que fiquei “decepcionado”, mas se tivesse que apontar um personagem que achei o mais fraco foi o Don Ottavio, porém como eu falei, Don Ottavio é meu favorito dessa ópera, então eu tenho altas expectativas de quem o canta
Abraços
Augusto